SOU DO CEARÁ


"Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome , pergunto o que há ?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará."

Patativa do Assaré

sábado, 6 de agosto de 2016

LITERATURA CEARENSE

AURIBERTO CAVALCANTE- 34 ANOS DE POESIA



 

 

" BERROS RIMA COM EROS " 

 

                                                  FRANCISCO CARVALHO


 

" BERROS RIMA COM EROS "
 

O Prof. Auriberto Cavalcante, do Liceu do Ceará, em visita que me fez recentemente, ofereceu-me os livros de poemas de sua autoria, a seguir enumerados: Berros (1999), Vinte Anos de Poesia (2002) e 2004. Não precisa ser um especialista no assunto para concluir que o poeta fez opção pelo discurso social estruturado numa linguagem que se caracteriza pela agressividade da sintaxe. Nada de lirismo do tipo flor de laranjeira, até mesmo quando escreve poemas de amor. O Poeminha Romântico (Berros, p. 109) é um recado nada diplomático de um Romeu que fala diretamente do que lhe interessa, sem rodeios e metáforas, a uma Julieta completamente fora dos padrões shakespeareanos.


A mesma agressividade está presente na maioria dos poemas de fundo social. A poesia de Auriberto Cavalcante é sujeito com objeto direto. Uma verdadeira explosão. Um bombardeio epigramático, a lembrar as flechas mais envenenadas do barão de Itararé. Poesia cujo núcleo verbal é feito de rebeldia, de sarcasmo, de indignação contra toda forma de injustiça e de exploração do homem pelo homem. Em Made in Brazil, o poeta denuncia que “o americano / bebe o suor / do brasileiro / nosso café / come a nossa lagosta / impõe sua vontade (...) e ainda cobra juros”. É um retrato perfeito da subserviência dos governos latino-americanos aos agiotas internacionais, que mandam seus recados por e-mail para os vassalos do Terceiro Mundo, ordenam confiscos de salários dos trabalhadores da ativa e dos aposentados, além de cometerem outros absurdos, como a instituição do obsceno superávit primário, uma espécie de bezerro de ouro dos tempos modernos.


Auriberto Cavalcante adverte num poema telegráfico: “NAS MÃOS DO AGIOTA / JAZ UM IDOTA”. Outros poemas construídos com a mesma argila da indignação: “O feto bailava / no útero de ouro / da mulher rica. // Outro feto jazia / no útero de fome / da mulher pobre”. Em outro poema de 2004 (p. 63), o poeta volta a tocar o dedo na ferida, ao dizer que “o FMI / deixa a população sem salário / sem educação / sem saúde / sem emprego / sem segurança / sem esperança”. Na página 25 de Berros, o autor presta homenagem das mais justas ao grande médico e poeta Caetano Ximenes Aragão, falecido há vários anos, que se notabilizou pela contundência do seu discurso poético e pelas vertentes sociais de sua temática. São de CXA os versos a seguir “SOU NORDESTINO / SOU UM NÓ / DO DESTINO”.


Vários intelectuais cearenses têm manifestado seus pontos de vista sobre a poética de Auriberto Cavalcante. Dimas Macêdo nos dá sua opinião: “O certo é que o poeta apurou sua voz e deu maior poder de vôo à imaginação (...) à construção de uma poesia dialética e participativa, que instiga a práxis do engajamento e a restauração da política do corpo”. 


Todo poeta deve ter a liberdade de escolher os seus caminhos e de expressar livremente a sua visão-de-mundo. Da mesma forma, tem a obrigação de respeitar aqueles que pensam e agem de forma diferente, segundo os princípios de diversidade e pluralidade que estão na origem da natureza humana. Num mundo e numa época em que até as chamadas ciências exatas mudam de pele todas as semanas, ninguém pode ostentar o brasão de dono exclusivo da verdade. Auriberto Cavalcante fez opção por uma linguagem direta e muitas vezes agressiva, seja quando focaliza problemas sociais ou quando escreve poemas de amor. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, é o que nos diz Fernando Pessoa, um ícone da poesia ocidental.


O importante é não estrangular a voz na garganta, não calar, não se omitir, não imitar o procedimento do avestruz, não enterrar a cabeça na areia quando pressente a aproximação do perigo. E como no pantanal dos podres poderes existem avestruzes enterrando as cabeças para evitar que sejam atingidos pelas vaias e os ovos que o povo lhes atira! Como são numerosos e como são reluzentes as suas plumas! Eles se parecem com aqueles animais que assimilam as cores da paisagem, numa típica estratégia de sobrevivência. Todos sabemos, inclusive o autor desses livros, que as nossas catilinárias poéticas não têm o poder de reverter as injustiças praticadas pelo FMI contra os pobres do mundo inteiro que sucumbem diariamente nos países subdesenvolvidos. De resto, impossível não concordar com o poeta que assina embaixo destes versos: “O Zodíaco é uma zona / Entra quem acredita”.



FRANCISCO CARVALHO 











                                     ALGUNS LIVROS DO AURIBERTO CAVALCANTE



















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